terça-feira, 22 de julho de 2014

Ariano morreu. Viva Ariano!

Acabo de sair de uma reunião e me deparo com notícias na internet dando conta da morte do gênio nordestino Ariano Suassuna e outras notícias desmentindo. Ter morrido ou não ter morrido, não altera a grandeza desse gênio imortal da Academia Brasileira de Letras e, acima de tudo, da cultura brasileira e universal. Quando Ariano Suassuna veio a Mossoró receber o título de Doutor Honoris Causa da Uern, o então reitor Walter Fonseca convidou este colunista/cordelista para apresentar o novo doutor na sua linguagem preferida, a literatura de cordel. E foi um sucesso. Ariano ficou extremamente feliz porque, sendo um dos maiores estudiosos desta expressão literária, nunca havia sido homenageado num folheto sobre a sua vida e obra. Agora que dele nos despedimos, relembro aquele momento glorioso de 2004, no Teatro Lauro Monte Filho:

I
A Uern nos convida
Para ocupar a tribuna
E na sua galeria
Preencher uma lacuna
Dando esse título exemplar
A Ariano Villar,
O Príncipe dos Suassuna!
II
Doutor pela nobre causa
Do seu fazer teatral,
Do saber do Sertão/mundo,
Do dizer armorial
Épico, romance e canção
Do clássico do seco chão
Do Nordeste universal!
III
Ariano é verve homérica,
Cabeça brechtiana,                                                                                                                                    
Cervantes sem quixotismo
Da cena paraibana;
Camões da nossa nação,
Gil Vicente do Sertão
Um gênio da raça humana.
IV
Foi nascido em 27
Com “fógo”, cachimbo e loa.
Nossa Senhora das Neves
Seu berço, terra tão boa
Espetáculo de cidade
Que contra  a sua vontade
Se chama de João Pessoa.
V
Filho de João Suassuna
E Dona Rita Villar
Sendo ele governador,
Ela, mulher exemplar,
Ariano com três anos
Viu tudo mudar de planos
Ao ver o seu pai tombar.
VI
Pegou fogo a Paraíba
Diante dessa agressão,
Princesa se levantou
Criando nova nação
No meu Sertão nordestino
Com bandeira, exército e hino,
Moeda e constituição!
VII
A seca de 32
Marcou demais os destinos
Dos filhos de Dona Rita
Que assistiram nordestinos
Morrendo de morte vã
E ela vendeu a Acauã
Para educar os meninos.
       VIII
Foi neste clima de dor,
De seca e revolução
Que ele começou a ver
João Redondo, procissão,
Aboio, Cangaço, Coco,
Peleja em Brasil Caboco,
Quadra, Martelo e Mourão!           IX
Dali Ariano foi
Pra o Colégio Americano
No Recife de Nabuco
Ginásio pernambucano
Faculdade de Direito
Onde granjeou respeito
Para galgar maior plano
X
Foi lá que encontrou Colegas,
Companheiros, irmãos, fãs,
Como Hermilo Borba Filho
Aluísio Magalhães
Heraldo Souto e Joel,
Capiba, Ana e Raquel,
Epitácio e Guimarães!
XI
Juntou todos com Brenand,
Do Colégio Oswaldo Cruz
Carlos Alberto Buarque
Juntos a turma conduz
A batalha cultural
Da guerrilha Armorial
Velho saber, nova luz!
XII 
Ariano começou
No mundo da poesia:
Com a Morte de Mão de Pau,
Beira-mar de cantoria
Jesuíno em lutas brabas
E a saga dos Guabirabas
Que o pasto incendiaria!
XIII
Depois entrou no teatro
Resgatando cavalheiros
Reis, bufões, príncipes, princesas
Em palhaços, fazendeiros,
Amarelos, mentirosos
Frades, ladrões, milagrosos
Prostitutas, cangaceiros!
XIV
Povoou a sua obra
De deuses, de herói e mito,
João Grilo sendo um Moisés,
Os Cariris sendo o Egito,
Céu, inferno e terra perto
E atravessando o deserto
Com seu primo Manuelito!
XV
Sua obra universal
No chão de Acauã habita,
Panati, Saco e São Pedro
Princesa e Pedra Bonita
Em “tí” Joaquim, monarquista,
“Tí” Manuel, materialista
...Na Compadecida, Rita!
XVI
Junta Téspis, Ésquilo e Sófocles,
A Marinho e Zé Limeira
Shakespeare a Leandro Gomes
Plauto e La Barca, a Vieira;
Popular, sábio, erudito,
Compondo o caldo bonito
Da cultura brasileira!    XVII
Criou o Armorial
Com Janice e com Brennand
Maximiniano Campos
Capiba, Peixe e Gilvan
Samico, estes que sabem juntar
O clássico com o popular
O ontem com o amanhã!
XVIII
Na sua dramaturgia
Cada fala é uma lição:
“Mulher Vestida de Sol”,
“Cantam as Harpas do Sião”,
“João da Cruz”, que vem de três
Folhetos e o entremez
“Torturas de um Coração”!
XIX
Fez o “Arco desolado”,
Lançou “O Rico Avarento”
“O Castigo da Soberba”
Suspeitoso Casamento,
“Auto da Compadecida”
De todas a mais querida,
Sucesso a todo momento!
XX
Também “O Homem da Vaca
E o poder da fortuna”
“O Santo e a Porca”, e mais
“A Pena e a Lei”, tribuna
De mensagem de justiça
“Farsa da Boa Preguiça”
São obras de Suassuna.
XXI
Escreveu Fernando e Isaura
Dos laços do coração
O Príncipe do Vai-e-Volta
Dos reinados do Sertão.
E em sua Pedra do Reino
Ariano deu um treino
Para a imortalização
XXII
Cinco Minutos são poucos
Pra descrever de uma vez
Obras que estão no Espanhol,
Francês, Alemão, Inglês,
Polonês, hebraico e tcheco
Cuja leitura tem eco
Holandês e finlandês!
XXIII
Ariano é professor,
Escritor e Advogado,
Tem bode em Taperoá,
Foi Secretário de Estado,
É homem, é santo, é gigante
Enciclopédia ambulante
Que ensina e é estudado!
XXIV
É gênio de engenho e arte
É inimigo do engodo,
Dramaturgo e romancista,
Militante e rapsodo
Digo, no que me concerne,
Que o novo Doutor da Uern
É doutor do mundo todo!