sexta-feira, 25 de abril de 2014

Mossoró, a terra do “já teve”

Claro que se pode dizer que Mossoró também tem coisas que não tinha antes. Mas isso não é privilégio de Mossoró. Cidades de todos os tamanhos e de todos os Estados e de todos os países estão recebendo coisas novas a cada dia, mês e ano. Cabe, porém a cada cidade preservar o que tem. Seu patrimônio histórico, cultural, econômico e simbólico. Mossoró, cidade que tanto alardeia amar sua história, na prática não dá muitas provas disso. No Facebook do meu filho Telêmaco Sandino, encontrei algumas lembranças de coisas a que Mossoró dava muita importância e perdeu sem levar em conta. Vejamos alguns casos: Mossoró tinha cinemas. O PAX se transformou numa loja, o Caiçara virou um prédio de vidro que tem a sua importância, mas não cumpre um papel cultural como o velho Caiçara, que abrigava também a Rádio Difusora e cumpria. Tinha o Cine Cid, que virou o Teatro Lauro Monte Filho, por uma luta nossa, dos artistas quando Mossoró descobriu que não tinha teatro há noventa anos... Particularmente, sofri como presidente da Fundação José Augusto para recuperá-lo, mas virei sanduíche entre a burocracia e a “burrocracia” mesmo quando em algum momento havia dinheiro para fazer a reforma. A atual secretária de Cultura do Estado dizia que não o fiz por não ter prestígio com a governadora Wilma de Faria, mas hoje ela é cunhada da governadora, ambas são mossoroenses e deixaram o caos se aprofundar a ponto de deixar aquele prédio histórico ser metamorfoseado de pombeiro em puteiro, com direito a antro de viciados em droga e álcool com perigosos resultados para as adjacências. Hoje é ponto de prostituição e consumo de álcool e drogas. Mossoró tinha a Casa do Gelo, de onde Lampião ficou atirando na Estação do Trem, hoje dita “Das Artes”. Virou uma loja de produtos paraguaios. Mossoró tinha a casa do jornalista Dorian Jorge Freire, com um acervo fantástico. Só a biblioteca continha dez mil volumes da melhor literatura brasileira e universal. Hoje, ela não existe mais. Se não me engano, aqui na distância paulistana, foi transformada em estacionamento. Mossoró tinha o Aceu... Ali, assisti Gonzaguinha cantando, vi a primeira noitada de viola da minha vida e fiz o I Congresso Potiguar de Repentistas Nordestinos, com os maiores repentistas do Brasil e Patativa do Assaré, vi mais de uma edição do Movimento de Extensão Cultural e Artística (MECA) e do Festival da Canção Popular (FECAP) e da Semana de Filosofia, além de outros eventos da melhor qualidade. Não foi só Aceu que acabou. Os eventos de altíssimo nível se escafederam com ele. O Aceu substituía com dignidade o Clube Ipiranga. Hoje, está abandonado, pois se perdeu nesta cidade o hábito de substituir o bom pelo melhor. Aqui as coisas morrem. E pronto. Mossoró tinha a ACDP. Das grandes festas de Ivonete Paula, onde fiz também um show de Bráulio Tavares, o Raio da Silibrina. “Ainda Continua Depois da Ponte”, mas... Já era à margem da ACDP e do Sujeito Mossoró tinha um rio... Ali n’O Sujeito se fazia até concursos de saltos ornamentais nas águas cristalinas do rio Mossoró. Não se falava em preservação do meio ambiente, mas também não se deixava o rio morrer. Ele foi multiplicado por três para ter morte tripla. O rio Mossoró virou um enorme esgoto a céu aberto. E não tem nem projeto para despoluição. Continuemos nas Notas Curtas.

Resistência
Ao lado do Palácio Rodolfo Fernandes, hoje é a Prefeitura, um Palácio dito da Resistência, por ter sido a trincheira principal contra o bando de Lampião, mas a cidade hoje não resiste à força dos “pequenos e grandes ladrões que vivem no meio dos homens de bem” dominando a vida mossoroense matando, uns e morrendo, outros como se a vida não valesse um fósforo riscado.

Faroeste caboclo
Mossoró tinha o Café do Povo, ponto de encontro de todos que vinha aqui... Há tempos fechado e em ruínas... Mossoró era terra de gente valente... Hoje é terra de ninguém, onde manda quem pode e obedece quem é abestado. De capital do Oeste, transformou-se em “Capital do Faroeste”.

Artistas
Mossoró teve Elizeu Ventania... Hoje, a família dele passa por necessidades e o frontispício da casa onde morou exibe frase de protesto, por não ter sido cumprida a promessa de reforma. Mossoró tem Valdemar dos Pássaros, que brilhou em programas televisivos nacionais, como Sílvio Santos, Fantástico, Faustão e outros, mas... teve as asas cortadas sem que ninguém se importasse quando o seu canto mavioso e múltiplo calasse. Vive perambulando pelas ruas, à procura de mãos caridosas. Mossoró tem grupos de teatro, que sobrevivem de incentivos privados e são mais valorizados fora do que aqui. Mossoró tem uma lei municipal de incentivo à cultura que não incentivou nada até agora por absoluta inoperância, pois imperam ainda as festas com bandas que chamam as mulheres de “raparigas” e metem a chibata preta na cultura verdadeira.

Economia
Não tem espaço que dê para falarmos de empresas comerciais e industriais que sumiram do mapa levando consigo os empregos, tampouco da moda de que fomos vítimas na última década do fecha-fecha de hospitais, sem falar dos CSUs, Cohab e inúmeras outras repartições que viraram pó.

Quimera
Quem sabe, essa eleição suplementar, linda, organizadíssima, oportuníssima, tão cheia de propostas maravilhosas, de um debate profícuo, produtivo e enriquecedor, venha trazer coisas novas que nossa vã filosofia não tem alcance para imaginar, que venham compensar as boas coisas velhas perdidas nas dobras do tempo.