terça-feira, 18 de agosto de 2015

Zé Rodrigues morreu. Viva Zé Rodrigues!

A vida corrida por demais não me permitiu prestar-lhe a última homenagem, acompanhando-o à sua última morada. Transitando entre Fortaleza, Recife e Natal, com uma agenda recheada de compromissos ina-diáveis porque urgentes demais, fiquei distante da partida de José Rodrigues da Costa, o fotógrafo e cinegrafista, cooperativista e turismófilo Zé Rodrigues, ou simplesmente “Rodrigues do Foto”, como era conhecido.
Acompanhei seus últimos dias, não tão de perto como gostaria e deveria por sermos parceiros de sonhos e empreitadas, amigos quase irmãos. Mas acompanhei.
Vi sua agonia, desde quando sentiu-se mal exatamente na minha residência em Serra do Mel, no dia do meu aniversário, na hora em que filmava o discurso do governador Robinson Faria, depois de ter passado uma semana comigo nas vilas, nas estradas esburacadas, nos poços fechados e nas tubulações com vazamentos, nas casas sedentas, por entre os cajueiros velhos vergados sem folhas, nos quintais viçosos só pelo cheiro da água sobrante dos gastos caseiros, nas obras inacabadas, nas cruzes dos caminhos.
Me disse, dias depois, já constatado um câncer a lhe corroer a saúde, que tinha sentido uma emoção muito forte ao ver, não só o governador, a senadora Fátima Bezerra, deputados, secretários e mais de mil amigos do programa A Voz da Serra, prestigiando o meu aniversário e compartilhado sonhos de melhoria do município. A emoção foi tão forte que fez aflorar o mal que já lhe arruinava a vida no silêncio traiçoeiro desta doença que até há alguns anos nem se podia chamar pelo nome, sendo tratada apenas como “aquela doença” ou a “doença grande”.
Disse-me também que não tinha medo da morte. Sabia que ela estava se aproximando, mas não a temia. Lembrava de quando acompanhou os últimos dias do ex-Padre Zé Luís, com certeza seu maior amigo e parceiro em empreitadas as mais produtivas e também as mais loucas, mas acima de tudo, as mais bem intencionadas.
Só não parava de sonhar.
Rodrigues não tinha emprego e a aposentadoria era mínima. Lembrava de quando um secretário de Comunicação do Estado o chamou para assumir um cargo no Palácio Potengi e ele respondeu que não podia porque tinha expediente para dar na Cooperativa dos Fotógrafos que ficava a cinquenta metros da sede do Governo. O secretário disse: Venha nos primeiros dias, assine o ponto e vá embora. Depois nem precisa vir. Só precisa pegar o contracheque no final do mês. Rodrigues respondeu: E com que cara vou me olhar no espelho? Colocou o caráter acima da ocasião e perdeu a chance de uma sinecura que tinha tudo para se tornar efetiva pois ainda não havia a obrigatoriedade de concurso da Constituição de 88. Este era Rodrigues.
A nossa última conversa foi no domingo, 9 de agosto próximo passado. Não estava mais para muitos sonhos, mas noutras conversas, sentado numa rede, computador à mão, lápis e folhas de papel ao redor, não parava de traçar seus grandes sonhos para o turismo da região. Sonhava tanto e tão alto que com ele aprendi a sonhar demais, mas aprendi também a podar os sonhos, por precisar podar as viagens imaginárias pelas estradas do futuro.
No domingo, 9, me fez um apelo para cobrar uma conta de uma autoridade, cuja posse havia filmado e que nem naquele momento de dificuldade conseguia receber a micharia. Com certeza chegaria em cima da necessidade. Mas sempre ressaltou que não sentiu-se abandonado. Especialmente pela família, de quem estava cercado de carinhos e de apoios.
No domingo, 16, fui à sua casa, novamente, levava-lhe uma boa notícia, mas ele estava hospitalizado e um compromisso urgente em Serra do Mel, não me permitiu visitá-lo no hospital.
Deixei para a segunda, mas o chamado da responsabilidade do trabalho, foi para chegar com urgência em Fortaleza. À tarde recebi a notícia triste.
Impossibilitado de ir para Mossoró, foi com tristeza que ganhei o prêmio de não vê-lo morto. A sua imagem vivaz é, com certeza a que vai me acompanhar até quando eu for encontrá-lo além do horizonte.
Vou deletar da retina a figuração de fragilidade que encontrei no seu rosto envelhecido e no seu corpo alquebrado que vi no último encontro.
Vou lembrar de Zé Rodrigues vibrante, sonhador quixotesco, cheio de projetos, otimista, esperançoso, sempre pensando no bem comum, no desenvolvimento da região, com especialidade na força da indústria sem chaminés e seu último xodó, o Polo Costa Branca de Turismo.
Uma simples palavra falaciosa, uma promessa falsa, um “lero” de um prefeito, uma mera promessa quimérica, por mais demagógica que fosse, de um simples vereador ou secretário de qualquer coisa, dizendo que iria fazer algo pelo turismo fazia Zé Rodrigues, sonhar, vibrar, acreditar, pensando que todos tinham a sua própria pureza e compromisso.
Rodrigues foi um dos maiores historiadores de Mossoró. Seu grau de leitura era pequeno, mas registrou em forma de imagens, seja em fotografia, seja em filmes, meio século de história de Mossoró e região. Centenas de milhares de fotografias, umas cinco mil horas de imagens em audiovisual.
Duvido que tenha acontecido algo importante em Mossoró que ele não tenha registrado com suas lentes.
Ficou conhecido no Brasil quando filmou ao vivo a morte de Falconi, o assaltante do Banorte, filmou e acompanhou Roberto Carlos quando ainda despertava na Jovem Guarda, em dois dias de visitas às salinas e outras belezas da região. Política, arte, economia, amigos, idosos, crianças e sua fixação, o turismo.
Ninguém mais que Zé Rodrigues mostrou o potencial turístico desta região, deste estado, sem nunca sensibilizar as autoridades insensíveis e insensatas.
Mas deixou sua marca. Em primeiro lugar numa família humilde, mas de muito respeito que criou. Deixou a marca, no seu exemplo de homem de bem e do bem, no seu imenso esforço produtivo, na sua liderança no meio dos fotógrafos e cinegrafistas por quem muito fez, até que cada um criasse asas e voasse, alguns para distante, outros lhe acompanhando de forma independente. Neste ramo são muito poucos os que não tiveram seu apoio, por mais simples que fosse em algum momento.
Não podemos esquecer o quanto sonhou por coisas grandes, junto aos grandes.
Com João Batista Cascudo acompanhou os primeiros passos da atual Uern, com Vingt-Un, as primeiras imagens concretas da ESAM, hoje UFERSA, a luta pela volta da Estrada de Ferro, pelo Ferryboat de Areia Branca, pelas estradas, pelos hotéis, pelo petróleo. Enfim, Ele pode não ser o autor de nada disso porque não assumiu cargos que lhe permitissem ordenar, mas sonhou junto com quem fez, e quando via um sonho realizado erguia outros novos sonhos.
Um dia disse a um assessor de um político que iria oferecer um projeto àquele gestor. O assessor disse, não leve projeto, converse, vá devagar até ele se convencer e assumir a proposta como sendo dele, como tendo partido dele e não de você, pois do contrário ele não leva à frente.
Imagino quantas ideias assim Rodrigues deu de graça a quem apareceu tanto como sendo aqueles que fazem muito pela sua terra...
Rodrigues foi. Mas Rodrigues ficou.
Sua marca estará sempre presente em cada um dos seus sonhos realizados quando as mentes atrasadas conseguirem alcançar alguns anos à frente, o que Rodrigues vislumbrou décadas atrás.
Zé Rodrigues morreu. Encantou-se, mudou de andar, partiu, mas haveremos de continuar os seus sonhos, suas lutas quixotescas, porque suas ideias não morrem.
Portanto, Viva Zé Rodrigues!