quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Aécio blindado

Luís Nassif lembra Julio Cortazar, em um de seus contos clássicos, em que ele conta a história da família em que morreu um membro. A avó não podia saber. Esconde-se sua morte. É verdade que ele é velado na sala da casa, enquanto alguém entretém a velhinha em outro cômodo. Mas dali por diante, ele teria que ser incluído nas conversas, como se estivesse vivo. Depois, morre mais um, e morre mais um. E todos recusam continuar vivos nas conversas. Outro contista do fantástico latino-americano, não me lembro se Gabriel Garcia Marques, conta a história da moeda de ouro que caiu na porta de um bar. Como ninguém sabe quem perdeu a moeda, e pode ser o coronel local, a moeda permanece no mesmo lugar por anos a fio. Em alguns momentos, o Brasil lembra o realismo fantástico das republiquetas latino-americanas. Tem-se um cadáver na sala de estar da política: a declaração do doleiro Alberto Youssef de que o senador Aécio Neves recebia US$ 150 mil mensais de Furnas, esquentados através da empresa Bauruense. O procurador geral da República Rodrigo Janot fingiu que não ouviu. E esqueceu-se de que sua gaveta guarda um inquérito de 2010 do MPF do Rio de Janeiro sobre uma conta fantasma de Aécio no paraíso fiscal de Liechtenstein. A notícia foi para o mundo inteiro através da Reuters Internacional. Notícia tão relevante que abriu a chamada das Top News do dia. Foi manchete do Clarin, o mais antikirchenista dos grupos de mídia argentinos. Por aqui, nenhum grande jornal julgou que seus leitores mereciam saber do caso. Não saiu uma mísera linha sobre a delação. Ontem, na sabatina de Janot no Senado, o assunto foi evitado em todas as intervenções, dos senadores da oposição e da situação. O sentimento de corpo foi maior do que as disputas ideológicas. Ou, quem sabe, o medo de expor seus próprios podres tenha sido a razão de preservar os podres do colega. Não é pouca coisa. Trata-se do candidato derrotado nas últimas eleições que recebeu quase 50% dos votos. É o nome favorito do PSDB para as próximas eleições. Continuemos com Nassif nas Notas Curtas:

Carbonário
Nos últimos meses, despontou como um carbonário, bradando em nome da ética e vociferando a palavra “honra” com o fervor de um monge beneditino exposto a alguma tentação demoníaca. Hoje em dia, em qualquer setor responsável, no meio empresarial, intelectual, político nas próprias alas mais consequentes do PSDB, forma-se a convicção sobre a imaturidade e irresponsabilidade de Aécio.

Viralizando
Onde se pretende chegar com essa blindagem, sonegando uma informação crucial em um terreno de ampla abertura das informações? Mais do que o fato em si, a blindagem viralizou, termo que se emprega quando algum tema explode nas redes sociais.

Credibilidade
Nesta quinta-feira será divulgada a próxima etapa da campanha visando reforçar a imagem dos jornais. O diretor-executivo da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira, foi taxativo: “Enquanto a internet ainda sedia terrenos de informação obscura, os jornais colocam à disposição do leitor seu grande patrimônio: a credibilidade”. Qual a sensação do leitor do grande jornal quando encontrar-se com o amigo que prefere a Internet, e souber por ele a notícia que só circulou na rede?

Credibilidade II
Não se trata de questão menor. Quando Fernando Collor caiu, venceu no jogo da credibilidade o único jornal que nada escondeu sobre ele nas eleições.

FotoLegenda
Olha só o desespero do PSDB por filiados e, melhor ainda, o desco-nhecimento de Aécio Neves ou sua equipe, quanto a Minas Gerais, Estado que ele governou por dois mandatos e continua representando como senador.