segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A autoridade gaúcha desertou

Apalavra anarquia quer dizer: ausência de governo ou autoridade. A ideologia anarquista, ao contrário do que muita gente pensa, propõe uma sociedade tão perfeita, cujas pessoas são tão organizadas e conscientes dos seus deveres e direitos bem como respeito ao direito dos outros, que não precisa de governo, prescinde de qualquer forma de autoridade pois essa civilidade extrema é auto regulável. Lindo e maravilhoso. Pena que na prática isso nunca tenha acontecido de fato e a perspectiva de vir a acontecer é tão remota quanto a de achar uma agulha perdida nos sete mares, sem bússola e sem escafandro. Agora irresponsavelmente o secretário de segurança do Rio Grande do Sul, num rasgo de inconsequência sem limites que deveria custar-lhe a demissão se pertencesse a um governo sério, disse que o próprio povo deve fazer o papel de polícia enfrentando os bandidos, dando-lhes inclusive voz de prisão, quando achar necessário. Que existe lei neste sentido, existe. Mas é para ser usada em casos extremos, como, no outro extremo está a lei do furo famélico. Quando o Estado, por acaso, não se faz presente e não quando a autoridade deserta. Em hipótese alguma, poder-se-ia imaginar que um secretário de segurança pública pudesse cometer tamanha estultícia declarando isso de público. Está pregando, não a anarquia, aquela de verdade, aquela da sociedade perfeita, mas o caos, a bandalheira, a barbárie. Olhe o que ganhou o povo gaúcho quando imbecilmente tirou do poder um homem da dimensão de Tarso Genro para entronar um peemedebista desqualificado.

Pé de galo
Ninguém se baixa para apanhar o sabonete no banheiro do impeachment. O PSDB sabe que se der o golpe, o PMDB, dono das cadeiras de vice, de presidente da Câmara e de Presidente do Senado, assumirá o governo.

Pé de galo II
Enquanto isso, o PMDB sabe que Temer é frágil e que os outros dois, Cunha e Renan, são pra lá de bichados e que a consequência drástica dessa pantomima é que podem ser convocadas, em prazo curtíssimo, eleições suplementares. Nesse caso, quem tem nomes para disputar são o PSDB e o PT.

Pé de galo III
Sabem PMDB e PSDB que, em caso de haver disputa só tem um jeito de eles ganhar nas urnas. É que Lula não esteja disputado. Para Lula não entrar na disputa só tem dois caminhos: assassiná-lo ou cassá-lo. No caso de cassá-lo, faz-se necessário jogá-lo na prisão ou no exílio. 

Pé de galo IV
Sabem os golpistas também que qualquer das três alternativas: assassinato, prisão ou exílio de Lula, só se realiza com baionetas e tanques nas ruas. Sabem também os “impicheiros” que petista nenhum, acredita mais nas flores vencendo os canhões. A isso ninguém pode chamar de democracia, que tem sido a bandeira histórica do PMDB desde quando se chamava MDB e tinha quadros como Ulysses Guimarães, Alencar Furtado e outros deste naipe. Pior. Sabem todos que a ditadura é imprevisível. O exemplo do golpista Carlos Lacerda, conseguindo o golpe e sendo cassado depois, ainda arde nos olhos dos golpistas de hoje.

FotoLegenda
A foto me fez lembrar versos da minha autoria no livro O Gran-de Joaquim Nabuco e Obra da Escravidão, publicado pela Editora IMEPH e com mais de 20 mil exemplares vendidos: “Não via em sua pureza / Motivos pra divisão... / Pele branca ou preta tinham / Iguais sangue e coração; / Choro igual quando nasciam / E quando todos morriam / Tombavam no mesmo chão. / Vivenciou esta vida / De igualdade comprovada; / Entendeu que a diferença / Era coisa fabricada / E que a espada e a cruz / Que em vão juravam Jesus, / De Cristo não tinham nada!”