sábado, 11 de julho de 2015

Lembra-se do tempo em que o Brasil não tinha crise?

Eu lembro. Na Rede Globo, na IstoÉ, na Veja, na Folha de São Paulo e no Estadão, raramente se falava em crise. Nas ruas não se via a classe média pedindo impeachment do Presidente da República, tampouco se pedia apuração dos gigantescos roubos e rombos da Petrobras. Ninguém batia panelas quando o Brasil quebrava e ia de pires na mão pedir socorro ao FMI. Um socorro que chegava em forma de cabresto, através de Ana Maria Jul, a chilena, quando não vinha pelas mãos e pelos dentes de Rodrigo Rato, o espanhol. Ninguém batia panelas nos apartamentos quando o ministro José Serra, da Saúde, anunciava mais uma campanha de vacinação contra a poliomielite, em cadeia nacional de rádio e TV. Não tinha adesivo nos carros, com o presidente da República com a cavidade anal coincidindo com a boca do tanque de combustível para o bombeiro enfiar a mangueira a cada final de mês, quando a gasolina invariavelmente era majorada... Até musiquinha tinha: “Vejam vocês, gasolina vai subir de preço”. Bons tempos, hein? O paraíso. Ruim mesmo era a militância de esquerda que fazia um debate político aprofundado sobre os motivos porque o Brasil rastejava e elaborava a mil por hora, propostas de superação, de como fazer o Brasil um dia ser uma pátria sem fome, com salário mínimo acima de cem dólares, sem crianças morrendo de subnutrição e respeitada no Concerto das Nações. Esses eram os capetas em pessoa. 25 milhões de crianças subnutridas só tinham direito a ser vistas no Natal quando se esmolava nas repartições públicas e através de órgãos da mídia, pedindo um quilo de alimentos para que se fizessem cestas básicas para que “os anjinhos” passassem uma noite sem fome na favela, em homenagem a Jesus, o menino da estrebaria. Mas nunca o Brasil se achou tão cristão. Era, sim, o País do futuro. 20 milhões de famílias não tinham teto. Moravam de favor ou nos barracos de papelão... Mas o Brasil era uma festa; Eram 50 os milhões de analfabetos, mas o tempo era bom para quem lia as poucas manchetes que falavam como se fosse próprio do destino do Brasil ser uma pátria de analfabrutos; Eram entre 40 e 50 os bilhões de dólares emprestados a mais, a cada ano, sem entrar um “cent” de dólar no País, pois rodava por lá mesmo de banco para banco a título de pagamento do serviço da eterna dívida externa. Tempos bons aqueles em que as empregadas domésticas não podiam perturbar uma “madama” por salário mínimo, por mais que o salário fosse mais mínimo que o de hoje, pelo menos umas seis vezes, em termos de poder de compra. Ruth Cardoso, digna esposa do então presidente Fernando Henrique, dizia que se o dinheiro destinado aos pobres fosse jogado de um avião, ainda chegaria muito mais nas mãos dos pobres que pela forma como era feita a distribuição naqueles tempos de “Brasil Solidário”. O tempo era bom. Ninguém reclamava de nada. Tudo parecia às mil maravilhas. O próprio FHC declarou na Europa que fome neste País, só havia quando, por acaso acontecia uma seca. E tinha quem acreditasse. Era exatamente o mesmo povo que hoje acha que a atual crise passageira com PIB cinco vezes maior, é o dilúvio. Há que se reconhecer que essa gente enfurecida que está indo às ruas “braba que só um siri”, “virada num pentelho”, evoluiu. Saiu da condição de idiota para a condição de imbecil. Imbecil com direito à própria mídia e a ter mídia própria, como definiu muito bem o genial Umberto Eco, falando do advento da internet

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Um anacrônico cronista social esteve em Mossoró falando de um mundo glamourizado que está perdendo referência. E, como se não bastasse o discurso mumificado, bandeou-se pelo mundo da política. E falou da sua imensa saudade dos tempos de glória em que o Brasil tinha como presidente o estadista Fernando Henrique Cardoso. E disse que nos países chiques por onde anda, o nome de Lula é associado ao alcoolismo e ao analfabetismo...

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O discurso não bate com os fatos: 47 títulos de Doutor Honoris em algumas das mais importantes universidades do mundo, a lembrança do nome para secretário Geral da ONU, dezenas de homenagens recebidas como estadista global e palestras com 300 mil dólares de cachê deixam uma vaga impressão de que Lula é, pelo menos, umas quinhentas vezes mais respeitado que Fernando Henrique Cardoso, o homem da “Boca Godê”, como diz um amigo meu da Paraíba.

Com ódio e sem projeto
Depois que uma senadora deixou o PSDB por entender que não se deve fazer oposição com ódio, agora é o ex-governador paulista, vice-presidente do partido, Alberto Goldman (SP), que em carta enviada à cúpula nacional do PSDB, afirma que o partido não tem um projeto de País e a legenda não é capaz de dizer o que faria se tivesse vencido as eleições do ano passado. "Nós não temos um projeto de país", reclamou, segundo informações da Folha de S. Paulo. Até que enfim vê-se um tucano com a cabeça no lugar e disposto a falar a verdade.