quinta-feira, 26 de março de 2015

O beijo das anciãs

De repente, não mais que de repente, eis que uma nação inteira se esqueceu do acirramento político de pouco mais de uma semana atrás, para discutir um beijo. Governistas de carteirinha e agregados do bônus, oportunistas de sempre, sempre dispostos a mamar nas tetas, ainda que queiram dar uma de oposição a cada momento que a popularidade do governo decresce, como neste momento, bem como oposicionistas dos mais variados matizes ideológicos no espectro prismático da direta, desde os mais liberais e democráticos que se acham de fato indignados com a corrupção até os nazifascistas empedernidos que querem a volta da ditadura, cujas mentes corrompidas só veem corrupção de um lado, mesmo que ao seu lado a corrupção esteja esborrotando, ou, como se diz nos aceiros dos esgotos sociais: “Saindo pelo ladrão”... Todos, absolutamente todos, como na África, quando pararam uma guerra para assistir Pelé jogar, pararam para discutir um beijo. Nem mais o “Fica Dilma” do dia 13 nem o “Fora Dilma” do dia 15. Agora, o Brasil para, a fim de discutir o beijo das anciãs da novela, num somatório de preconceitos à flor da pele. Ora, beijos gays já se tornaram comuns na TV brasileira. Portanto, o preconceito parece ser contra a idade das beijoqueiras. Mas há que se convir que beijos de idosos nas novelas brasileiras, é cena pra lá de corriqueira. Aí a bola do preconceito volta para a homossexualidade, pois mesmo o beijo sendo de pessoas idosas, não pode ser entre duas mulheres. Ora, pois. Toda essa discussão me parece por demais ridícula, pois temos muito com o que nos preocupar. Que tal, se preocupar com os bilhões que estão roubando da Petrobras? Mas... Com uma ressalva que os indignados com tamanha roubalheira se indignem também com os bilhões da privataria tucana que estão escondidinhos no HSBC da Suíça, e que somam mais de dez vezes o montante do “Petrolão”. Que tal indignar-se com o “Mensalão do PT”? Só que seria de bom alvitre que os indignados revirassem também o estômago com o “Mensalão Tucano” com direito ao mesmo Marcos Valério e o “Mensalão do DEM” que também teve direito até a dinheiro na cueca. Indignação com Delúbio e Dirceu, desde que se tenha também nojo das roubalheiras de Zé Agripino, de Álvaro Dias e de Aécio Moreira Neves. Acho, porém, que melhor seria que os indignados estivessem apavorados com tanto estupro, assassinato, assaltos, sequestros, balas perdidas, melhor dizendo vidas perdidas a bala, agressões a mulheres e crianças e tudo que o “show da vida” oferece a cada minuto de rádio e TV. Inclusive quando a arte – “será arte”, Gullar? – se materializa num BBB com estupro, gravidez ao vivo, masturbação em horário nobre, sexo explícito e um “rendez-vous” que entra no seu lar, transformando sua sala de estar em um “freje” para “educar” seus filhos e filhas para o sexo devasso. Sem sequer dar-se ao trabalho de educá-los para o prazer, com um Kama Sutra que seria bem melhor que toda a hipocrisia envolvida numa aura de veneno moral e preconceito doentio de milhões de brasileiros preocupados com o beijo de duas velhinhas que se amam. Esquecem que Caetano já dizia em verso consagrado “toda maneira de amor vale a pena”. A mim, particularmente, o único beijo que me agride, em dois milênios de história humana, é o beijo de Judas, porque beijo da traição, beijo da ingratidão, beijo da safadeza e não do amor.

Dia do Teatro
Hoje, Dia Internacional do Teatro e Dia Nacional do Circo, ainda há pouco o que comemorar, mas os artistas estão nas ruas e nos palcos. Lutando.

Cláudia
O reboliço que aconteceu nos processos da ex-prefeita Cláudia Regina tem causado um moído danado em Mossoró. Muitas expectativas, muitas preocupações e absolutamente nenhuma certeza para ninguém. As análises mais abalizadas juridicamente concluem o que o senso comum já determinou desde sempre: “Seja o que Deus quiser”.

Dilma refém do PMDB
É o que acham muitos analistas. Cá com meus botões, tenho minhas concordâncias com a análise. Mas não posso deixar de vislumbrar um rasgo de Maquiavel na presidenta, ora fera ferida, onça acuada. O PMDB de Cunha entrou como uma cunha governo a dentro. E perturba e penetra cada vez. Derrubou Cid Gomes, deforma a reforma política e serve, mais que o PSDB e a Globo, ao projeto golpista em curso por ordem explícita do Tio Sam. Mas Dilma respira. Até o “beijo das velhinhas” desvia as atenções dos golpistas que agora discutem o “geriátrico beijo gay” e se recompõe, vai pondo o governo nos trilhos, retomando o protagonismo da pauta política e engole, goela abaixo, Henrique e Chalita ministros, além de outros purgantes tão amargos quanto. Mas toma fôlego, enquanto os ajustes de Levy, de leve vão surtindo efeito. Maquiavel diria: É hora da raposa. Se tentar ser Leão, fragilizada como se encontra, Dilma se quebra. Faz-se de morta, mas se mexe. Com desenvoltura, até. As próximas pautas de rua são contra Cunha e a Globo. Dias 30 de março e 1.º de abril. 31 de março, dia da “gloriosa”, feito sanduíche, imprensado entre atos. Dia 12, quando a direitona quer voltar às ruas, pode ser tarde e não empolgar mais. Aguardemos, pois.